Passagens/Pasajes

Em seu livro Cidades Invisíveis, o escritor cubano Italo Calvino começa dizendo: Não se sabe se Kublai Khan crê em tudo o que diz Marco Pólo quando este lhe conta sobre as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção, mais que qualquer outro de seus enviados ou exploradores.
E assim começa uma relação entre Kublai Khan, que se encontra encerrado nas muralhas do seu vasto império, e o explorador Marco Pólo, que a cada viagem descreve, segundo suas memórias, cidades maravilhosas com teatros de cristal, galos de ouro ou ainda outras, por vezes melancólicas, onde a população, presa em uma espécie de memória da juventude, vê os seus desejos transformados apenas em recordações, e ainda uma que se duplica e perde-se no seu próprio reflexo, olhando-se sempre olho no olho, mas sem um envolvimento profundo.
São com temas levantados pelo escritor cubano como a memória, o desejo por explorar novas paradas e os seus símbolos, que o trabalho da artista Silvia Ruiz opera, nos remetendo a problematizações semelhantes em sua série Passagens.
Através da pesquisa que se inicia em 2010, a artista em suas próprias andanças passa a reunir uma série de acessos existentes como portas, janelas, arquiteturas abandonadas, mas que já não se abrem para o mundo exterior, perdendo assim sua função de nos convidar a entrar fisicamente nos espaços construídos em torno deles, sejam esses uma capela em Praga, um castelo na cidade de Sintra em Portugal ou até mesmo uma porta de uma construção decadente em Ouro Preto, Minas Gerais.
A série Passagens toma corpo em 2014, com um repertório particular de lugares. A artista começa a transformar as imagens adquiridas ao longo de suas viagens em gravuras, explorando em seus trabalhos grandes dimensões, e lidando na confecção dos mesmos com a ação do tempo e resgate da sua própria memória afetiva.
Esses espaços encerrados capturados por Silvia Ruiz de fato passam a nos interessar. O intervalo em que nos detemos diante dessas passagens, o trânsito da memória, são as provocações que a artista parece nos propor, estimulando e nos convidando a reorganizar um espaço extinto, entrando com o nosso próprio repertório de vida nesse hiato de tempo diante dos trabalhos expostos.

ALEXANDRE LOPES - 2016 Curador independente e crítico de arte.
Texto escrito para exposição: Passagens/Pasajes na Galeria do Instituto Cervantes, SP.

 

Ressonâncias 

 
O mundo está na minha cabeça. Meu corpo está no mundo.
PAUL AUSTER

Trilhando caminhos diversos, o processo criativo do artista nem sempre é tão claro de inicio, surgindo em dados momentos da penumbra ou de uma espécie de luz filtrada por questões que buscam uma forma e às vezes até se configuram em uma espécie de eco. Embora com interesses e produções distintas, Leonor Décourt e Silvia Ruiz, acabam convergindo em alguns aspectos sejam esses, formais ou até mesmo de uma atmosfera emocional que emergem em suas obras, evocando assim uma espécie de ressonância.
Mulheres e gravadoras ambas se expressão dentro de um universo que se abre em possibilidades formais como: a gravura em metal, método delicado usado para realizar a maioria dos trabalhos de Leonor, ou o linóleo e madeira, composição de suportes esses que Silvia costuma utilizar para gerar suas obras.
Leonor traz a tona em seus trabalhos, conhecimentos adquiridos em sua formação como arquiteta e sua paixão pela música, chegando mesmo a compor suas obras como em uma partitura musical, arranjos e re-arranjos estudados, buscando formas de ver e explorando assim as diversas possibilidades do olhar e do sentir.
Entre frestas, linhas ordenadas e ranhuras, que transbordam de significados emocionais e nos remete a um vazio e certo silêncio ,a preocupação da artista Silvia Ruiz também perpassa por uma espécie de composição onde os elementos presentes em sua obra se inter-relacionam,competem, se alternam e finalmente se combinam entre si, embate esse que acaba por refletir seu mundo interior.
Na introdução do livro de Brian O’Doherty,No interior do cubo branco ,Martim Grossmann diz que: A arte necessita sempre aferir e calibrar seus valores com o mundo que a abriga e a inspira.
Como preocupação e uma espécie de onda vibratória, sentimos isso ecoando na produção de ambas as artistas presentes nessa mostra.

ALEXANDRE LOPES - 2016 Curador independente e crítico de arte.
Texto escrito para exposição coletiva: Ressonâncias na Galeria Ponto Arte, SP.

 

 

Em[pilhamentos]

Excesso, confusão, caos. Três palavras que, não raro, adjetivam as grandes cidades. Excesso de tudo, pessoas, carros, casas, prédios, poluição, barulho. Confusão há de toda espécie. Do ambiente de trabalho ao doméstico, dos amigos aos desconhecidos, das amizades aos amores, nada escapa as garras da confusão. E há, em especial, a nossa própria, íntima, quase inconfessável, responsável, talvez pelas demais. Junte-se tudo e temos o caos.
Venho trabalhando e me dedicando principalmente com a técnica da gravura, fazendo imagens de grandes dimensões e pesquisando seus possíveis desdobramentos. Como resultado tenho obtido imagens poéticas das cidades vistas por dois temas inusitados, bancos e cadeiras. De toda espécie e sempre vazios.
Abordar os mesmos temas inúmeras vezes, é tentar gerar pela própria repetição à diferença, a migração dos bancos e das cadeiras em diferentes superfícies sejam elas de madeira, cobre ou até mesmo tridimensional pensando numa instalação transformamdo-os. O uso desses objetos, como tema de meus trabalhos, pode ser visto como um contraponto à infatigável agitação das cidades, que não dá brecha para o repouso, a pausa, a contemplação. Os bancos e as cadeiras tornaram-se desimportantes.
Segundo Ricardo Resende “Fazer gravura nessa lógica de um tempo acelerado, tratar nessa gravura o banal, o quotidiano e os dilemas da sociedade contemporânea de forma tão delicada na imagem gravada, é uma tarefa artística difícil e, muitas vezes, incompreendida, não aceita”. (texto da exposição – Variáveis de Bancos de Jardim /Galeria Gravura Brasileira)
Para o projeto “parede” sempre penso em aplicar a técnica do Lambe-Lambe, bastante comum nos muros das cidades, a matriz do banco é feita em xilogravura. A mesma imagem se repete, empilha-se e inverte-se, em toda a parede. Seria o desejo de repouso no meio do caos da cidade? O caos impondo-se ao repouso? Trata-se de arte eminentemente urbana. 


SILVIA RUIZ - 2015.
Texto escrito para o projeto parede: Em[pilhamentos] - SESC Presidente Prudente, SP.

 

Variáveis de bancos de jardim

Arte não se ensina, se apreende e se aprende através da observação e das práticas artísticas. A gravura para Silvia Ruiz nada mais é do que a necessidade de expressão que se dá pela manifestação misteriosa da poética do ser humano que, em seu caso, se dá na arte de gravar sobre a madeira e o metal. A arte volta para sua tradição diante de um mundo feito por imagens digitais e traz consigo um dado novo quando se observa o crescente interesse dos artistas buscando nas linguagens tradicionais (feitas com a mão), o seu meio de expressão. São imagens de rara beleza que extraem das técnicas tradicionais a poética que busca no cotidiano as situações e objetos banais como temas a serem retratados. Para esta mostra na Gravura Brasileira, Silvia Ruiz traz fotogravuras e xilogravuras de cortes vigorosos desprendidos sobre a madeira e depois transferidos para o papel. Entalha na madeira e transfere a imagem para o papel com a colher de pau e é desse gesto que extrai toda a expressividade da linguagem com vistas de bancos! O que exige da artista dedicação e força nos braços e mãos para cavar e imprimir. É um trabalho exaustivo para conseguir os belos e delicados resultados sobre grandes folhas de papel. As suas xilogravuras são de grandes dimensões e tem como resultado a beleza incomum de imagens poéticas das cidades vistas por um tema único e inusitado, o banco. O interesse da artista é pelos bancos de jardim, mais precisamente. Mas também aparecem outras variações em suas gravuras. As imagens são de uma banalidade e simplicidade que chegam a gerar dúvidas e estranhamento. Por que tão simples? E por que de tão simples são belas estas gravuras? Foram estas as primeiras perguntas que me fiz quando me deparei com suas gravuras no Salão Nacional de Artes Visuais de Jundiaí, em 2013. De linhas simples e cores chapadas, os bancos adquirem uma expressividade pouco vista para um equipamento urbano dessa natureza, que no dia a dia não se nota mais nas praças e jardins. Tornaram-se desimportantes. As pessoas nas cidades brasileiras não têm mais o hábito de sentar nos bancos. Em uma sociedade acuada pelo medo do convívio com o outro, os bancos passaram a significar o perigo por darem lugar para moradores em condição de rua, para a vadiagem e para os que não fazem nada, simplesmente contemplam a vida. Os bancos de jardim podem significar momentos de contemplação e de reflexão quando se encontra consigo mesmo. Momentos necessários para a criação. E são estas as condições dos bancos que Silvia Ruiz explora. O banco necessário para a vida urbana. Mas não é fácil ser sucinto, simples e poético na arte contemporânea e se expressar de forma tão direta com imagens de bancos. A arte requer cada vez mais como um dos seus ingredientes a ousadia do artista. É uma ousadia o artista buscar na linguagem tradicional o seu meio de expressão em um momento que se vê na arte contemporânea uma desmaterialização das técnicas e do objeto artístico. É mais uma ousadia em tempos de arte cerebral um artista vir com um trabalho que “retrata” bancos de jardim, uma imagem a princípio inocente, pueril e de matriz romântica à maneira como Silvia Ruiz nos mostra. Fazer gravura nessa lógica de um tempo acelerado, tratar nessa gravura o banal, o quotidiano e os dilemas da sociedade contemporânea de forma tão delicada na imagem gravada, é uma tarefa artística difícil e, muitas vezes, incompreendida, não aceita. A artista fotografa bancos por onde passa. São imagens dos bancos vazios, singelos e solitários. São lugares por onde passou e lugares que guarda em sua memória. Não se vê a figura humana. Os bancos estão sempre vazios. Mas um banco desprovido de um ser humano sentado ou recostado não poderia existir. Não faz jus a sua função nas cidades. Não faz sentido. Tornam-se mobiliário estranho e imagem melancólica dos parques. “Seres” solitários. As gravuras de bancos de Silvia Ruiz trazem uma dose de surreal, de fantástico, na maneira que os retrata, os grava e imprime sobre o papel. Bancos foram feitos para sentar, descansar, conviver e interagir com o que senta ao seu lado. Também são feitos para contemplar e esta, talvez, seja a sua principal função. É o lugar do descanso. Da pausa no dia a dia, na parada no meio da caminhada para o trabalho, ao sentar para conversar com um conhecido, com uma conversa desinteressada com um estranho. Do não fazer nada e de jogar conversa fora com os conhecidos. É o melhor lugar para o ócio. Para o ócio criativo tão caro e necessário para se criar, para se inventar. Para se pensar a arte. O que a artista faz é uma homenagem ao banco de jardim. Serve como um alento para os bancos, porque não, ao dar a eles sobrevida nas suas gravuras. Para muitos filósofos, cientistas, intelectuais e artistas, andar, contemplar, entrar em contato com a natureza e consigo próprio numa caminhada, sentado em um banco de jardim ou na rua, são os momentos da criação humana. É onde as grandes invenções acontecem. Sentar-se em um banco de jardim para ler, conversar, pensar e criar, são gestos simples do dia a dia. Os fundos de onde se vê os bancos nas gravuras são aleatórios, inventados pela artista. Quando não restam solitários no meio do branco infinito da folha de papel. As cores são poucas e se repetem de uma gravura para outra, predominando no conjunto os amarelos, os marrons e os brancos do papel, entremeados por outras em tons de azul. São belas as “pinturas” gravadas com delicadeza pela artista do mundo à nossa volta, dando à realidade um plano exclusivamente subjetivo. Não pretende “gravar” o banco em sua aparência e sim em sua essência poética. Imagens que vêm da introspecção interior ou nas próprias ações da artista e das anotações visuais que faz da cidade. Silvia Ruiz faz uma espécie de diário dos fatos do seu quotidiano e das ocorrências dos seus estados de espírito ao observar um simples banco de jardim e transformá-lo em uma poesia visual gravada.


RICARDO RESENDE - 2014. Curador e crítico de arte.
Texto escrito para exposição: Variáveis de bancos de jardim na Galeria Gravura Brasileira, SP. 

 

Manual do Sublime Deslumbrante

Desde sempre o feminino parece ser regido por uma provisão infinita de máquinas inerente ao rito da construção da beleza. O batom rouge, o espelho confidente, a fita métrica que nos avisa exatamente onde tudo deve estar para que o belo pareça sempre belo. O drink que nos acompanha e não necessariamente mata a sede física, afinal o feminino tem o poder de transformar quase tudo que lhe interessa em ornamento. E sendo dessa forma, como pode ser chique saber envergar uma taça de Martini e desfilar pelo salão de uma festa ou até mesmo causar efeito onde quer que se esteja, emergindo assim um mágico cenário para todos os rituais que sabem fascinar com freqüência. Afinal a atmosfera é o que parece importar para esse universo. Desse modo a artista Silvia Ruiz faz surgir envoltos na delicadeza das rendas, objetos que parecem evocar um conjunto de regras e cerimônias como se fossem praticadas em uma religião sagrada. Por mais simples que pareça o objeto ou o ato de empregá-lo, tudo toma uma grande importância no momento de seu uso.
O escritor Marcel Proust dimensiona bem o que seria essa espécie de atmosfera em uma das inúmeras expressões que ele emprega para descrever sua personagem Odete de Crecy : Ela vivia na intimidade de suas pérolas. A intimidade estabelecida do interlúdio entre o feminino e quem o emprega mesmo quando esse ato particular resulta em um mundo todo voltado para o exterior, e por mais supérfluo que pareça um ornamento, sua função primordial é a de ser visto. Ainda que esse nasça como algo que não seja para ser revelado de pronto, mas como um artifício a ser empregado no seu melhor momento. Você não seria mulher se não soubesse com tanta arte, fazer, refazer, com qualquer cousa, uma alma nova e á parte. E sua ciência é tanta, enfim, que ao pressentir o meu olhar, você finge ser outra, e assim consegue sempre me enganar.
Onde a guerra e sedução parecem partir de um mesmo princípio, o universo feminino sabe como ninguém esse jogo do revelar e esconder o que quer que lhe interesse, uma jóia deslumbrante pode surgir da forma mais surpreendente e sublime possível com um simples gesto de mexer nos cabelos, ou seja, nos apaixonamos ou nos rendemos a esse poder de trazer para si sentimentos como: arrebatamento, ciúmes, admiração ou o próprio amor. Preso em uma rede lançada com certo ardil, não temos escapatória a não ser amar todas as táticas contidas nesse manual do sublime deslumbrante que nos revela o ser feminino.

ALEXANDRE LOPES - 2014
Texto escrito para exposição : Universo Feminino no Espaço Elissa Stecca, SP.


Bancos

Alguns artistas utilizam um mesmo tema repetidas vezes, gerando séries de trabalhos ou mesmo uma obsessão que dura toda uma vida. Sobre eles constroem suas poéticas. Pintar o monte Saint Victoire foi o desafio da vida de Cézanne; Monet fez uma série de cinqüenta pinturas da catedral de Rouen; Jasper Johns pinta bandeiras, alvos e número até hoje; Volpi achou nas bandeirinhas de festa junina a base de suas experimentações formais. De forma similar, a artista Silvia Ruiz nos apresenta uma série de trabalhos, intitulada “bancos”. Trata-se, como o próprio título diz, de uma longa sequência dos mais variados tipos de bancos encontrados em ruas, praças e parques. A série nos coloca duas perguntas básicas: de que forma esses bancos são representados, e, afinal, por que bancos?

Com relação à primeira pergunta, é preciso dizer que todas as imagens que integram essa série têm origem em imagens fotográficas. Essas imagens serão posteriormente transformadas em gravuras. O que interessa à artista é fazer essa espécie de tradução: transferir uma imagem de um tipo de linguagem e inseri-la em outra. É claro que, como em qualquer processo de tradução, há perdas e ganhos. Uma foto colorida transformada numa xilogravura em preto e branco perde a distinção de seus elementos, mas, opostamente, ganha uma unidade mais intensa, como se banco e paisagem partilhassem da mesma matéria. Há ainda a possibilidade de intervenção da mão da artista sobre as imagens, o que faz com que as imagens fotográficas sejam não apenas traduzidas numa nova linguagem, mas também recriadas.

Quanto à segunda pergunta, as respostas poderiam ser infinitas. Os bancos certamente possuem atração própria, ora mais charmosos debaixo de inúmeros galhos, ora mais rústicos diante de uma praia. No entanto, o elemento comum a eles todos é uma ausência: a ausência do ser humano. Nenhum dos bancos de Silvia Ruiz exerce sua função, que é servir de pausa e descanso a corpos cansados. Dessa forma, os bancos, que geralmente nos dão a possibilidade de contemplar algo, passam a ser objetos de contemplação. Talvez mais: passam a ser objetos de desejo. Desejo de minutos de pausa, quietude e esquecimento.

Nessa série, o que percebemos é a preocupação constante em achar um sutil equilíbrio entre transferência e interferência. Para cada imagem fotográfica, é preciso achar seu melhor correlato na gravura. Uma imagem fica melhor em xilo ou litogravura? Ela pede mais ou menos interferência manual? Mais ou menos contrastes? Para tanto, cabe à artista sentir a essência dessas imagens e executar sua melhor tradução. Tradução que, para guardar a força do original, exige boa dose de criação. Criação que, ao final, é o que atrai nosso olhar para essas imagens e nosso corpo para o desejo de penetrá-las.

CAHONI CHUFALO - 2013
Texto escrito para o álbum : Bancos.

 

Paisagens


Sílvia Ruiz é uma gravadora de origem. As suas pinturas aqui apresentadas guardam com essa linguagem uma relação próxima. Em ambas, o elemento estrutural fundamental são suas incisões e, por conseqüência, suas linhas.
Nessa série de pinturas, intitulada Paisagens, há um duplo movimento de adição e subtração, de construção e destruição, de apagamento e revelação. Tal como qualquer pintura, a artista começa adicionando coisas a tela. Essa adição não visa, entretanto, criar uma composição por meio de tintas, linhas, formas e cores, mas sim criar um suporte, um substrato capaz de receber as incisões de uma ponta seca. Aí, quando são feitas as incisões, o que temos não são meramente linhas, que são o resultado das incisões nas gravuras; o que temos são desvelamentos do interior do suporte construído (óleo, encáustica, folhas de ouro e betume), uma espécie de ferida que coloca em contato o dentro e o fora desses quadros. Esses desvelamentos , mais do que linhas sobre um plano, têm uma existência própria, uma ontologia: cada uma delas possui características exclusivas, uma configuração particular. Pequenos gestos da artista que nos levam tanto ao fundo do quadro, como à vasta área deixada intocada, placidez oposta à força e fúria das incisões.
Por que dar a essa série de pinturas o nome de um gênero tradicional da arte? Que tipos de paisagens seriam essas? Penso, por um lado, que podemos criar uma paisagem da história da arte, estimulada pelas relações suscitadas pelas obras de Silvia Ruiz, como com os trabalhos de Mira Schendel, seu uso econômico de elementos compositivos e da folha de ouro, ou mesmo com Lucio Fontana e suas radicais incisões que transpassavam suas telas. Por outro lado, essas paisagens podem ser também algo como pequenas visões claras num ambiente enevoado, pequenas luzes surgidas sob brumas. Como exige uma paisagem incerta, precisamos do nosso olhar mais atento para captar todas as suas belezas.


CAHONI CHUFALO - 2012
Texto escrito para a serie Paisagens exposta no 1ª Salão de Artes Visuais. São Caetano, SP - Brasil.

 

Dialética da fragmentação


Existe uma Estética da fragmentação que predomina na arte produzida hoje. Ela implica na exaltação dos ruídos, das rupturas,das tipologias luminosas sejam da arte proposta em suportes convencionais ou não. É uma estética veloz, incisiva, de acúmulo e dissipação, suspensão de dejetos e ao mesmo tempo simplificação e excesso. Evidentemente, aquilo que resulta na arte está antes em que a produz. A arte que a alimenta vem de um conjunto humano que igualmente se orienta e desorienta, aproxima e rompe, baila pelo não linear como ideal de espaço, trajetória e percepção: o caminho retilíneo na realidade de hoje implica na assimilação e rápido abandono das coisas, dos afetos, das luzes. A luz urbana, alías, é um assunto no trabalho de Silvia Ruiz. Suas gravuras são luz e linha, incisão e ruído, contenção da liberdade e liberdade de contenção. Porém, dentro da lógica dos excessos percebemos uma substituição de comportamento e matéria visual, onde o claro-escuro é substituído pela binariedade de uma poesia que reflete a condição urbana de luz acesa e apagada. Vemos espasmos de luz gravados por uma artista que percebe estroboscopicamente as coisas.
No entanto, este contraponto se dá pelo diálogo entre manchas e linhas que irão formar o mesmo tecido vivo da superfície da chapa de cobre.
A arte da gravura corta o tempo e incide na contemporaneidade e nada há de anacrônico em gravar, exatamente porque a ação de gravar surge, hoje, como devolutiva poética do corpo da cidade que corta a linearidade dos relacionamentos humanos, que incide na percepção de seus habitantes, ou seja, a cidade grava-nos coisas. É uma condição dada e inevitável. A matriz que estamos discutindo é mãe das máquinas de informatizar, compactar, recortar, copiar e colar. Uma gravura em metal se reproduz determinado número de vezes, mas o gesto que está sobre a matriz é único, o corte é inalterável, o ácido é preciso na imprecisão gerada pelo desenho do spray que protege a placa gravada por Silvia, no lugar do processo tradicional que utiliza o breu para definir pontos luminosos. E a poesia dos pontos luminosos é evocada para trazer a luz dos raros momentos de clareza que se pode ter dentro do agito, do barulho, da poluição verbivocovisual das cidades. A poesia visual de Silvia Ruiz é a tradução da cidade que vive na noite o seu momento de expansão, alívio e silêncio, repouso; o mesmo que a sua personalidade só encontra no ápice do agito. Ela encontra êxtase na exaustão, suas linhas equilibram-se em massas amorfas de luz e insinuam a metáfora de delicados postes móveis, que espalham entre nós os “pontos de luz”. O lema é agitar para repousar, romper para encontrar, incidir para suavizar, clarear para escurecer, ensurdecer para ouvir a voz interna, gravar para exprimir o que a realidade lhe grava.


SAULO DI TARSO - 2003

 

Fósseis

Esse trabalho possui duas facetas a serem abordadas. Uma delas se refere ao objetivo técnico do trabalho, de cunho experimental no campo da impressão/gravação sobre suporte não convencional. A outra, sob a qual o trabalho se desenrola, possui uma poética altamente subjetiva, versando visualmente sobre uma questão praticamente universal: a reminiscência das coisas versus o tempo. Assim, podemos começar a falar sobre o que são fósseis nesse trabalho, uma experiência técnica de impressão de partes, carcaças de peixes e camarões em placas de argila, pressionadas propositalmente, com um cálculo quase displicente, avesso tanto ao acaso quanto à causalidade natural aos fósseis que conhecemos como registro histórico, com a capacidade de relembrar em essência a necessidade humana de construir uma memória, de registrar algo que não se quer perder com o tempo e assim viver sob a ótica de sua memória, como ser que produz história e é produto dela.
Assim como os fósseis, essa nova construção sobre argila, essa fossilização consciente, realçando os pequenos relevos (baixos relevos) e linhas profundas, incisivas e ainda assim delicadas, fruto da compressão controlada que se exerceu sobre o suporte, este por sua vez trabalhado assimetricamente e organicamente (em seus veios e rachaduras, conseguidas ao longo do processo de extensão do material), visando a formar um conjunto harmonioso entre linhas e superfície, visualidade e poética,tem a qualidade daquilo que ao ser impresso já será apenas uma sombra de sua realidade primeira, estará presente como vestígio, e no caso do trabalho abordado, carregado de sensação, de subjetividade pessoal, interna, a ser compartilhada, uma vez que se transforma em objeto visual, se presentificando como outra e nova realidade.
Nesse trabalho, a palavra "impressão" assume toda a sua potencialidade, no ato de imprimir/comprimir sobre a argila uma lembrança, um sinal, uma marca, uma impressão/vestígio daquilo que um dia foi algo concreto, que se desfez com o tempo e permaneceu como Memória através da gravação, na tentativa do homem de se impor contra o Tempo e criar uma forma de reminiscência das coisas.


CYNTHIA TABOADA - 2003
Texto escrito para serie de cerámicas : Fósseis apresentado no XXX Salão de Arte Jovem de Santos, São Paulo - Brasil.